sábado, 26 de fevereiro de 2011

A Primeira Caravana ao Araguaia. Parte 1



* Por Paulo Fonteles Filho

Sob a mordaça

Foi nos porões do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), em Brasília, em meados de 1972 que meus pais, Paulo Fonteles e Hecilda Veiga tomaram conhecimento da guerrilha no Sul do Pará.
Ante o grito das torturas e a canção "Esses moços, pobres moços" de Lupicínio Rodrigues - usada para abafar a tormenta dos calabouços da infâmia e da tortura perpetradas pela Gestapo tupiniquim - foi que rapidamente correu entre os presos políticos, através de formas que só eles conheciam, da chegada naquele famigerado centro de tortura de vários lavradores presos nas currutelas e matas da região do Araguaia. Um deles, Otacílio Alves de Miranda, o "Baiano", pude conhecer em 2009 em meio aos ações do Grupo de Trabalho Tocantins do Ministério da Defesa em Marabá (Pa).
Tais prisões expressaram a campanha inicial de Cerco e Aniquilamento das Forças Armadas naquela remota região, numa das últimas frentes de expansão da sociedade brasileira para combater a maior rebelião armada do Brasil Rural, segundo afirmaria anos depois o General Viana Moog.
A emoção de saber da insurreição armada nos sertões araguaianos tomou conta do coração e da consciência daqueles que estavam desterrados e meus pais foram inundados, como todos que resistiam as bestas-feras do PIC, pelo exemplo da insurgência no Araguaia.
Um preso político, durante a ditadura militar brasileira, era como um artezão da esperança que retirava da escuridão do pau-de-arara e da cadeira-do-dragão
o proibido anseio de liberdade. Minha mãe diz que naqueles dias de cárcere aprendeu as canções das Forças Guerrilheiras do Araguaia com as gentes aprisionadas nas matas do Pará.
Sobrevivente das tenebrosas masmorras do estado terrorista dos generais, Paulo Fonteles, como muitos outros, é enquadrado pelo espúrio Decreto-Lei 477 que retirou-lhe o direito de retomar de imediato à universidade e por três anos foi trabalhar em seringais da familía, onde conheceu a dura lida do seringueiro e do camponês, recobrando as forças para retomar a atividade militante.
Estava em curso no país a luta pela Anistia e iniciava-se no ABC paulista a fundamental jornada de 1978-1980 que representou para o Brasil a força da classe operária que revelou na cena política brasileira a figura emblemática do metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva.
A ditadura militar, que aprofundou a subordinação do Brasil aos interesses do imperialismo, particularmente o norte-americano e eliminou arbitrariamente as limitadas conquistas sociais e democráticas, assistia atônita o reforçamento de um movimento democrático de massas que desaguaria, em 1984, nas febris multidões que nas praças e nas ruas exigiam as Diretas-Já.
O fato é que a partir da segunda metade da década de 1970, derrotada fragorosamente nas urnas nas eleições de 1974 pelo MDB, legenda que abrigava quase todo o conjunto de forças oposicionistas ao regime, a mais elevada e reacionária oficialidade militar não conseguia esconder a preocupação de que exemplos dos acontecimentos das matas paraenses pudessem ressurgir, inclusive na própria região deflagrada.
Os donos do poder de então tinham plena consciência dos prejuízos que as Forças Guerrilheiras do Araguaia tinham perpetrado contra o regime e não foi por obra do acaso a tristemente famosa Chacina da Lapa que liquidou parte expressiva da Direção Nacional do PC do Brasil, entre eles Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, em 1976.
Nas circunstâncias das comemorações do Ano Internacional da Mulher, em 1975, a repressão política não conseguiu coibir que um pequeno grupo de mulheres lançasse o primeiro "Manifesto pela Anistia" e o Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas (MFPA).
A bandeira da Anistia, que deveria ser "ampla, geral e irrestrita" foi como um vento que articulou os setores democráticos da sociedade brasileira até então sufocada pelos grilhões do despotismo militar. Diante de tal situação os presos políticos se levantaram nos presídios e o cárcere se tornou importante irradiador de agitação pelas liberdades públicas e pelo fim do Estado de exceção.
Muitas das informações da luta armada no Brasil, principalmente do Araguaia, tornaram-se públicas a partir dos relatos dos presos políticos, o que ampliou o impacto das informações para fora das prisões, ensejando a organização dos setores mudancistas. Figuras de proa da política brasileira, como o Senador Teotônio Vilela, deram grande visibilidade aos clamores dos que estavam em prisões políticas.
O fato é que o MFPA desaguou na criação do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA), o que permitiu a elevação da luta democrática no Brasil. Mesmo com a promulgação da limitada Lei de Anistia, em 29 de Agosto de 1979, o regime não pode segurar a radicalização daquele processo que anunciava a exigência do esclarecimento sobre o paradeiro dos desaparecidos políticos do regime militar.
Os setores democráticos da sociedade brasileira, inclusos aí os familiares de desaparecidos políticos passam a se organizar e realizam protestos e congressos, procurando obter o esclarecimento do Governo Federal e principalmente tornando público para a sociedade brasileira os motivos da luta no Sul do Pará. Conseguiram galvanizar o apoio de diversas entidades profissionais, dentre elas destacavam-se a Associação Brasileira da Imprensa (ABI) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Em Novembro de 1979 é realizado em Salvador (Ba), o II Congresso Nacional pela Anistia (o primeiro fora realizado pelos exilados brasileiros em Roma, em Junho do mesmo ano) e é lançado o Manifesto dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos do Araguaia num esforço extraordinário para reunir alguns familiares dos combatentes que tombaram nas matas paraenses.
Fora um duro trabalho de pesquisa e era imprecindível relacionar os nomes da totalidade dos guerrilheiros, o que não fora possível até aquele momento. Um dos entraves era o fato de que os guerrilheiros eram oriundos de diversas partes do Brasil, além do permanente estado repressivo do país. Um outro fator importante para a obtenção das informações, além daquelas de posse dos que estavam presos, como Elza Monnerat e José Genoíno, foram os relatos de dirigentes do PC do Brasil que retornavam do exílio, como era o caso do veterano dirigente comunista João Amazonas.
Em certa medida as informações sobre a Guerrilha do Araguaia criaram um ambiente de fascínio pela bravura daqueles que ficaram conhecidos como o "povo da mata". Uma farta literatura passou a ser confeccionada e a cada nova informação crescia a curiosidade acerca da epopéia popular nas selvas do sul do Pará.
No comovente Manifesto do II Congresso Nacional pela Anistia, que aqui transcrevo num trecho significativo, revela-se a fibra que é inerente ao povo brasileiro:
"A nós familiares, através dos Comitês Brasileiros pela Anistia, cabemos o dever sagrado de esclarecer aos presentes de forma concisa e clara o que foi a Guerra do Araguaia, essa guerra que o regime militar faz absoluta questão de manter em segredo e procura a todo o custo impedir qualquer informação a esse respeito chegue ao conhecimento do povo brasileiro:
A partir de 1967 várias pessoas deixaram seus lares, suas faculdades, seus empregos em vários pontos do Brasil, para passarem a residir na região do Araguaia, onde a população vivia e vive até hoje na mais completa miséria. Começaram, então, a desenvolver um trabalho junto ao povo, de assistência e conscientização das causas dos seus mais angustiantes problemas e organizando-os no sentido de resistirem e lutarem contra aqueles que os exploravam, contra aqueles que os expulsavam de suas terras e contra as adversidades inerentes à vida no campo.
Mas, infelizmente, foram descobertos cedo demais pelas forças do regime militar em abril de 1972, que caíram com todas suas garras assassinas e terroristas sobre esses rapazes e moças, e também, sobre a população camponesa local. A única alternativa foi resistir ao ataque monstruoso das forças combinadas do Éxercito, Marinha, Aeronáutica e Policias Militares locais, pois se se deixassem aprisionar, fatalmente seriam torturados até a morte como foram alguns que caíram em suas mãos. É imperioso ressaltar que as forças guerrilheiras do Araguaia conseguiram, nas duas primeiras campanhas desferidas pelas Forças Armadas, vitórias significativas, provocando às forças inimigas sérios revezes.
Entretanto, entre a segunda e a terceira campanha houve uma trégua de cerca de um ano, em cujo período os guerrilheiros poderiam escapar, mas, para certamente não deixarem os camponeses entregues à própria sorte, decidiram ficar na região e como diz o final do Regulamento dos Guerrilheiros: "É hora de decisão, de acabar para sempre com o abandono que vive o interior e por fim nos incontáveis sofrimentos de milhões de brasileiros abandonados, humilhados e explorados. A revolução abrirá caminho para uma nova vida. Até hoje, o povo foi tratado como escravo. Chegou o momento de levantar-se para varrer os inimigos da liberdade, da independência e do progresso do Brasil".
Entretanto, desgraçadamente, no transcorrer da terceira campanha, as Forças Aramadas, que utilizaram durante as três campanhas um contingente de tropas, segundo declaração de um comandante militar, semelhante ao da Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos campos da Itália, isto é, cerca de 20 mil homens, se valendo das mais sofisticadas armas de guerra, inclusive com assessoramento de oficiais portugueses com experiência de guerrilhas nas colônias de Portugal na África, conseguiram, finalmente, aniquilar bandidescamente e covardemente os nossos entes queridos.
Mas como está transcrito no livro "Diário da Guerrilha do Araguaia" prefaciado por Clóvis Moura: "Filhos queridos do povo, patriotas da melhor estirpe, ousam desafiar as dificuldades, os revezes e os sacrifícios com o pensamento voltado para o Brasil livre do despotismo, Conquistam o respeito e admiração das grandes massas populares. Viverão no coração de todos que amam a liberdade e odeiam a opressão. Seus nomes permanecerão eternamente
gravados na memória de coragem e dignidade que erigiram com seu devotamento à causa do povo, com o sangue de suas vidas".
O documento dos familiares enumera, ainda, todos os combatentes, incluindo os camponeses que pegaram em armas e é concluído com o seguinte senso de responsabilidade:
"É nosso dever tornar público o que os nossos filhos, irmãos, pais, enfim, nossos entes queridos sofreram nessa luta tremendamente desigual, mas que mesmo assim souberam resistir com bravura e heroísmo até as suas forças, à sanha fascista da ditadura. Muitos, ou quase todos morreram, porém tombaram mantendo erguida a bandeira por melhores condições de vida pela liberdade do povo brasileiro e cabe a nós tomarmos das mãos estas bandeiras e prosseguir na luta que esses homens e mulheres, nossos compatriotas iniciaram, e elevar aos mais altos níveis a memória destes herois de nosso povo".
Num esforço titânico encaminham à 23 de Agosto de 1980 uma carta ao Papa João Paulo II quando de sua primeira visita ao Brasil. E na segunda parte do documento é feito o apelo:
"Na história da humanidade, mesmo nas mais sangrentas guerras entre países, é habitual após o término do conflito o esclarecimento dos fatos, a troca de prisioneiros, e a entrega dos corpos daqueles que tombaram na luta, para que gozem de sepultura condigna e das homenagens de seus familiares.
As diversas lutas do povo, nestes anos difíceis, já fazem parte da história do Brasil. Porque não aceitar então o movimento guerrilheiro do Araguaia, uma luta dentro das fronteiras de nosso país? Porque não permitir que seus familiares lhes ofereçam sepultura e as últimas homenagens? Porque os brasileiros que tombaram nos campos da Itália lutando contra o nazi-fascismo tiveram sepultura digna no cemitério de Pistoia e mais tarde foram transladados para o Brasil e os restos mortais dos que morreram no Araguaia pugnando pelos mesmos princípios até hoje não foram devolvidos as suas famílias?
Rogamos à Vossa Santidade - João Paulo II - que interceda junto as autoridades brasileiras no sentido de esclarecer o que ocorreu com as seguintes pessoas dadas como mortas e desaparecidas, na chamada guerrilha do Araguaia (...).
Pedimos também por outros patriotas desaparecidos nos cárceres de diferentes pontos do país, cujos nomes constam da lista anexa do Comitê Brasileiro da Anistia do Rio de Janeiro."
A carta é concluída com um sofrido apelo à liderança máxima da Igreja católica:
"Vossa Santidade, que sempre se preocupou com as violações dos direitos Humanos, é a nossa última esperança."
O conjunto dos esforços do Comitê Brasileiro pela Anistia e dos familiares dos mortos e desaparecidos do Araguaia irá preparar uma marco decisivo e pouco conhecido da luta pela afirmação dos direitos humanos no Brasil: A Primeira Caravana ao Araguaia.

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