sábado, 21 de maio de 2011

Entrevista para UNE

“O espírito da rebeldia está presente no DNA dos estudantes do Pará”, Pedro Fonteles, presidente da UAP

Saiba quais foram os principais momentos da última gestão da União Acadêmica Paraense e conheça mais sobre o estudante de comércio exterior e presidente da entidade, Pedro Fonteles, que fala sobre seu pai, música brasileira e ritmos do Pará e poesia.

Nos próximos dias 3 e 4 de junho, acontecerá o 3º Congresso da União Acadêmica Paraense (UAP), quando uma nova diretoria será eleita. Em entrevista ao EstudanteNet, o presidente da UAP, Pedro Fonteles, diz acreditar que a luta política está no DNA do jovem paraense.

O movimento estudantil do Pará teve sua história marcada pela ditadura. Durante o período, a entidade teve a sua sede demolida e seus dirigentes foram torturados. A UAP foi reerguida apenas em 2007. Durante os últimos dois anos, a gestão de Pedro, que também formado em História, alcançou algumas conquistas importantes, como a aprovação da meia passagem intermunicipal para os estudantes e a realização do 1º Encontro de Estudantes do ProUni de Belém. “Vivemos hoje um período rico no movimento estudantil, os DCEs estão sendo retomados, os CAs ganhando cada vez mais autonomia, e a UNE está presente em cada universidade desse estado. Essas conquistas são fruto das lutas de pautas locais travadas nos últimos anos”, conta.

Leitor de poesia e apreciador de música, Pedro é, também, romântico ao falar da sua luta no movimento estudantil: “acredito que uma das principais funções da UAP é preservar o que considero como o mais importante para os estudantes e a juventude: os seus sonhos”. Ele continua: “É dever de cada militante estudantil deste país, honrar o legado daqueles que tombaram na luta pela redemocratização do estado Brasileiro! E uma dívida histórica que a nossa geração tem.”

Na entrevista a seguir, o jovem fala sobre seu pai, sua maior inspiração na luta política, sobre a poesia de Pablo Neruda, sobre samba, uma de suas maiores paixões, sobre ser blogueiro e revela seus maiores sonhos de vida.

Durante esses dois anos à frente da presidência da UAP, você esteve participando de diversas mobilizações, vigílias e manifestações em seu estado. Quais foram as principais bandeiras de luta sua gestão?

Foi um período de muitas lutas travadas. Nossa gestão começou logo de cara com uma grande batalha: aprovar a meia-passagem intermunicipal para os estudantes do Pará. Essa era a grande bandeira de gerações do movimento estudantil paraense, e a UAP teve participação destacada nessa conquista. Tivemos o desafio de realizar o 1º Encontro de Estudantes do ProUni de Belém, assim como travar em diversas oportunidades a luta contra o aumento das mensalidades nas faculdades privadas. Fizemos grandes mobilizações de massa para a resistência contra o aumento das tarifas do transporte publico em Belém, que tem se mostrado particularmente neste ano, muito vitoriosa, pois já barramos nas ultimas três ultimas oportunidades o aumento da tarifa.

Uma das grandes conquistas da sua gestão, foi, em 2010, a realização do 1º Encontro de Estudantes Bolsistas do ProUni de Belém do Pará. Qual a importância de fornecer este espaço para discussão?

Muito importante! Foi a primeira ação da UAP neste sentido, realizar este encontro possibilitou apresentar nossa entidade e apresentar a UNE a centenas de estudantes que ingressaram na universidade por uma bandeira e conquista nossa, da UNE e das UEEs. Apesar disto, neste caso, não nos conheciam ou não tinham contato conosco. Apresentar o nosso debate, ouvir a opinião daqueles que recebem diretamente este benefício e no final tirar uma carta de reivindicações, fez com que a nossa entidade passasse para outro patamar da relação com a sua base,

Seu pai, Paulo Fonteles, foi uma personalidade importante na luta política do Estado do Pará. Ele fundou e presidiu a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos humanos e coordenou a primeira caravana dos familiares dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia. De que formas ele te inspirou na sua luta política?

Meu pai era advogado dos camponeses do sul do Pará na luta pela posse da terra e foi covardemente assassinado pelas balas do latifúndio em 11 de junho de 1987. Eu tinha quatro meses quando isso aconteceu, mas sem dúvida nenhuma, ele foi, é, e sempre será, a minha maior inspiração! O Paulo Fonteles me ensinou, mesmo que distante, uma grande lição: só a luta muda a vida! Ele costumava dizer quando recebia as ameaças de morte: “Tiram minha vida, não minhas idéias. O mais importante é a luta do povo”. Cresci ouvindo as histórias que contavam dele, lendo seus poemas e seus textos em revistas e livros. Isso me tornou uma criança, e depois um jovem, que sabia exatamente como era dura e cruel a realidade da grande maioria do nosso povo.

Foi o seu pai, mesmo que distante, que te apresentou a poesia, então? De quais poetas mais gosta?

Sim! E eu gosto bastante de poesia! Tem alguns poetas que sempre leio: Pablo Neruda e Gonçalves dias são dois deles. Eu tenho uma poesia preferida, que foi entoada na Guerrilha do Araguaia, chamada "Pesadelo", escrita por Paulo Cesar Pinheiro e Mauricio Tapajos.

Está lendo algum livro nesse momento?
Infelizmente, não! A organização para o CONUNE não tem me deixado tempo para leitura...

Que obra literária, que te inspira, você indicaria para jovens estudantes?
Existe uma que não poderia deixar de citar, chama-se: "Contido a Bala - A vida e a morte de Paulo Fonteles". Retrata a vida política do meu saudoso pai, desde os tempos dele de dirigente da UNE, os anos no cárcere e da tortura em Brasília, os palanques no Araguaia que o fizeram Deputado Estadual pelo PCdoB, até ao seu assassinato. Enfim, conta a vida de alguém que dedicou toda sua força, sua capacidade política e sua esperança na busca incondicional de um país livre das injustiças e desigualdades até o seu ultimo suspiro em vida.

Além de gostar de ler, você também escreve, tem um blog. Em sua opinião, qual a importância das mídias sociais para a luta política, e como essa ferramenta pode ser utilizada?
Nesse período de luta acirrada que os setores progressistas têm travado contra o monopólio da mídia e pela sua democratização, acho que é fundamental que a juventude brasileira exercite e reivindique esse espaço. Hoje em dia, poucos detêm o controle do sistema midiático, que é marcado por privilégios como a distribuição de verbas publicitárias governamentais, e que acabam impondo suas ideias e opiniões como porta-vozes de uma diversidade ignorada! Penso, então, que uma tarefa da nossa geração contribuir na disputa dos rumos da política de regulamentação da mídia brasileira

Disse que gosta de samba. Que artistas e bandas mais gosta?
Como diz a música: "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é". O samba é a expressão do nosso povo, da alegria, da simplicidade, da luta cotidiana por uma vida melhor, por um país mais justo. É a cara da juventude brasileira que acorda cedo, vai pra batalha, e no final do dia entra num boteco e toma sua cervejinha, feliz da vida! Gosto do Matinho da Vila, Bezerra da Silva, Fundo de Quintal, Demônios da Garoa. Enfim, samba de raiz!

O que está rolando de música aí no Pará que o resto do Brasil deve conhecer? Alguma indicação?
O Pará é conhecido musicalmente por conta do Carimbó, que é clássico, e das bandas de techno Brega, como o Calypso. Mas acho que temos um ritmo que, apesar de não ser uma novidade, nao é tao conhecido fora do Pará: a "Guitarrada'. É uma mistura de Choro com Carimbó, com Cúmbia e outros. E um grande ritmo musical.

Além de ouvir um samba e ler poesia, o que você gosta de fazer nas horas vagas?
Muitas coisas! Eu sou um jovem! Tenho uma filha de 3 anos, chama-se Maria Luisa, então quase todo o meu tempo livre é dedicado a ela. Quase em conjunto com a Maria Luisa, vem a Maíra Nogueira, que é minha namorada. Mas sempre acho um tempo para uma cervejinha e um bom bate papo com os amigos.

Qual o seu maior sonho?
Tenho buscado me tornar a cada dia, um militante mais capacitado, alguém que, junto com muitos outros, consiga construir uma outra sociedade, uma sociedade sem violação dos direitos humanos, sem latifúndio, mais fraterna e igualitária. Acho que esse é um grande sonho que tenho. No campo pessoal, quero publicar livros, e ver o meu time, o filho da glória e do triunfo, o Clube do Remo, chegar novamente à elite do futebol brasileiro! Coisa que está difícil, pois ele não está hoje em dia nem na quarta divisão! Mas como sou um jovem brasileiro, eu sonho sempre...

Da Redação
http://www.une.org.br/

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